Guia de Teatro

Auto da Compadecida 70 anos: a estreia de 1956 que levou o sertão ao palco nacional

Publicado em 01/10/2026

Muitas mãos erguidas ao ar em show ao ar livre

Em 11 de setembro de 1956, o palco do Teatro de Santa Isabel, no Recife, recebeu pela primeira vez João Grilo e Chicó. A estreia do Auto da Compadecida em 1956, com o elenco do Teatro Adolescente do Recife e direção de Clênio Wanderley, completou 70 anos em setembro de 2026 e segue como marco de um momento em que o Nordeste passou a ocupar o centro da dramaturgia brasileira. O texto de Ariano Suassuna, escrito no ano anterior, saiu do Recife para o país e nunca mais deixou de ser montado.

Uma estreia modesta com futuro grande

O Teatro Adolescente do Recife era um grupo amador, formado por jovens, e a primeira temporada não teve a repercussão que o título ganharia depois. Parte da crítica local recebeu a peça com reservas. A virada veio poucos meses mais tarde, quando a montagem foi selecionada para o primeiro Festival de Amadores Nacionais, no Rio de Janeiro, então capital do país.

No início de 1957, a companhia pernambucana se apresentou no Teatro Dulcina e saiu premiada, com reconhecimento para o espetáculo e para a direção de Clênio Wanderley. A consagração no Rio levou o nome de Ariano Suassuna a críticos, editores e diretores de outras regiões, e o texto começou a circular por grupos amadores e profissionais em todo o Brasil.

A mistura que deu forma ao texto

O que tornou o Auto da Compadecida tão duradouro foi a combinação de fontes que, até então, raramente dividiam o mesmo palco. Três tradições se cruzam na peça:

Essa costura permitiu que a peça falasse ao mesmo tempo de religião, desigualdade e fome sem abandonar o humor. O público ri de João Grilo e, no momento seguinte, é colocado diante de perguntas sérias sobre justiça e misericórdia.

Do sertão ao repertório nacional

Ao longo das décadas, o Auto da Compadecida se tornou um dos textos mais montados do teatro brasileiro, presença constante em escolas, grupos universitários e companhias profissionais. A peça também ganhou versões para televisão e cinema, que ampliaram ainda mais o alcance dos personagens, mas o palco continua sendo o lugar onde o texto mostra sua engrenagem original: o palhaço que conduz a narrativa, os atores que trocam de papel, a cenografia que pode ser mínima.

Ariano Suassuna seguiu escrevendo para teatro e, nos anos 1970, liderou o Movimento Armorial, que buscava uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares do Nordeste. O Auto da Compadecida, anterior ao movimento, já antecipava essa proposta ao tratar o cordel e o auto religioso como matéria de alta dramaturgia.

O que a montagem de 1956 ainda ensina aos grupos

Para quem pensa em montar o texto atualmente, a trajetória da estreia oferece algumas lições práticas:

  1. Grupos amadores podem fazer história. A primeira montagem foi feita por jovens, sem estrutura profissional, e mesmo assim projetou o autor.
  2. O narrador é chave. O Palhaço, que abre e comenta a ação, precisa de um ator com domínio de plateia, porque ele estabelece o pacto de jogo com o público.
  3. Menos cenário, mais ritmo. A peça funciona em espaços variados porque se apoia no ator e na palavra, não em grandes efeitos.
  4. Humor com consequência. As cenas cômicas rendem mais quando o elenco não perde de vista o julgamento final, que dá peso a tudo o que veio antes.

Setenta anos depois, o Santa Isabel continua de pé, o cordel ainda circula e João Grilo segue enganando a morte em algum palco do país.

Dúvidas que costumam surgir

Quando e onde estreou o Auto da Compadecida?

A primeira montagem estreou em 11 de setembro de 1956, no Teatro de Santa Isabel, no Recife, com o Teatro Adolescente do Recife e direção de Clênio Wanderley.

Por que a peça ficou conhecida nacionalmente?

A montagem pernambucana foi premiada no primeiro Festival de Amadores Nacionais, no Rio de Janeiro, no início de 1957. O reconhecimento levou o texto a grupos e críticos de todo o país.

O Auto da Compadecida é baseado em cordel?

Em parte. Ariano Suassuna recriou episódios de folhetos populares e os combinou com a estrutura dos autos religiosos e com a tradição da comédia popular.