Morte e Vida Severina em Nancy, 60 anos: o prêmio que projetou o teatro universitário
Publicado em 13/10/2026

Um grupo de estudantes paulistanos embarcou para a França em 1966 levando um poema pernambucano, cenografia enxuta e canções compostas por um jovem estudante de arquitetura. Voltou com o primeiro prêmio do Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy. Sessenta anos depois, a montagem de Morte e Vida Severina pelo TUCA continua sendo lembrada como um dos momentos em que o teatro universitário brasileiro ganhou projeção internacional e ajudou a formar uma geração de artistas e espectadores.
O poema que virou espetáculo
Morte e Vida Severina foi escrito por João Cabral de Melo Neto em meados dos anos 1950 e traz o subtítulo "auto de Natal pernambucano". O texto acompanha Severino, retirante que desce do sertão rumo ao Recife seguindo o curso do rio Capibaribe e encontra, a cada parada, a morte em suas várias formas: a fome, a violência, o trabalho exaustivo. No fim, o nascimento de uma criança devolve alguma esperança à travessia.
A escolha de um poema, e não de uma peça convencional, dizia muito sobre o espírito do grupo. O TUCA, sigla de Teatro da Universidade Católica de São Paulo, estreou a montagem em 11 de setembro de 1965, na inauguração do teatro da universidade, com direção de Silnei Siqueira. A estrutura em quadros, herdada dos autos, favorecia uma encenação coral, em que o elenco se revezava entre os muitos personagens que cruzam o caminho do retirante.
A música de Chico Buarque
A trilha foi composta por Chico Buarque, então estudante de arquitetura e ainda no início da carreira. As canções musicaram versos de João Cabral e deram ao espetáculo uma dimensão de cortejo, com coros que evocavam cantos fúnebres e rezas do interior nordestino. Trechos como "Funeral de um lavrador" ganharam vida própria fora do palco e passaram a circular em discos e apresentações.
A combinação de poesia, música e interpretação coletiva fez da montagem um sucesso de público em São Paulo e abriu caminho para a viagem à França.
O prêmio em Nancy
O festival de Nancy reunia grupos universitários de vários países e havia se tornado, nos anos 1960, uma vitrine importante para o teatro experimental. Em 1966, Morte e Vida Severina recebeu o primeiro prêmio do evento. A repercussão foi imediata: críticos europeus destacaram a força plástica da encenação e a maneira como o elenco transformava a dureza do texto em teatro vivo.
Para o Brasil, o prêmio teve peso simbólico. Mostrava que um grupo formado por estudantes, fora do circuito comercial, podia dialogar com o que havia de mais atual na cena internacional, a partir de um tema profundamente brasileiro, a seca e a migração nordestina.
O teatro universitário como escola
A trajetória do TUCA se insere em um movimento mais amplo. Nos anos 1960, grupos ligados a universidades e ao movimento estudantil se multiplicaram pelo país e cumpriram três papéis que continuam reconhecidos:
- Formação de artistas. Muitos atores, diretores, cenógrafos e músicos deram os primeiros passos em grupos universitários, experimentando linguagens sem a pressão da bilheteria.
- Formação de público. Apresentações a preços acessíveis, em campi e espaços alternativos, aproximaram do teatro estudantes e trabalhadores que não frequentavam as grandes salas.
- Experimentação. Livres de fórmulas comerciais, esses grupos testaram encenações corais, o uso de poesia e música em cena e a discussão de temas sociais.
O endurecimento do regime militar, especialmente a partir do fim da década, atingiu duramente essa efervescência, com censura e perseguição a artistas e estudantes. Ainda assim, a experiência deixou marcas duradouras na cena brasileira.
O que a montagem ensina aos grupos atuais
Para quem faz teatro universitário ou amador, o caso do TUCA oferece referências concretas:
- Textos não dramáticos podem virar cena. Poemas, crônicas e relatos ganham força quando o grupo encontra uma forma coletiva de narrá-los.
- A música pode estruturar o espetáculo. Em Morte e Vida Severina, as canções organizam o percurso do protagonista e marcam cada etapa da viagem.
- Recursos simples não limitam o alcance. A montagem premiada se apoiava no elenco e na palavra, não em grandes cenários.
Seis décadas depois, a montagem permanece como referência para quem acredita que a universidade pode ser também um lugar de criação artística.
Dúvidas que costumam surgir
Quem dirigiu a montagem de Morte e Vida Severina do TUCA?
A direção foi de Silnei Siqueira, e a música, de Chico Buarque. A estreia ocorreu em 11 de setembro de 1965, em São Paulo.
Que prêmio a montagem recebeu em Nancy?
Em 1966, o espetáculo conquistou o primeiro prêmio do Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy, na França.
Morte e Vida Severina é uma peça de teatro?
O texto de João Cabral de Melo Neto é um poema dramático, com subtítulo de auto de Natal. Sua estrutura em episódios e vozes facilita a adaptação para o palco.